Afinal, por que os carros estão tão caros, a culpa é de quem?
Carro novo no Brasil nunca foi barato, custo de produção elevado, carga tributária exorbitante, redução no poder de compra no brasileiro, problemas agravados com a crise dos semicondutores, alta no valor de insumos e transporte mundial. o próximo vilão: a crise hídrica e aumento na energia elétrica.
![]() |
| Imagem: Renato Oliveira. |
Comprar um carro 0km no Brasil nunca foi barato, mas no último ano o valor dos carros sofreram uma alta expressiva nunca antes vista durante a vigência do Plano Real. Não há um único culpado, mas vários fatores que levaram ao aumento do preço dos veículos, a pandemia, escassez de algumas matérias primas, alta no transporte internacional, a crise dos chips, e questões cambiais, combinadas à carga tributária brasileira, são ingredientes deste cenário.
A parcela que cabe à pandemia, está ligada a escassez de matéria prima, segundo os dados apresentados na coletiva mensal no último 5 de maio, Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores, houve aumento de 61% no preço do aço, 68% nos polímeros e elastômeros, 16% nos pneus, e alta de 13% no custo do alumínio. Moraes indica também a valorização do transporte internacional de cargas, com incremento de 105% no transporte aéreo, 170% na locação de containers, e 339% no transporte marítimo, tudo somado a desvalorização do real de 39% em relação ao dólar no ano de 2020.
Além dos motivos já citados, a crise dos semicondutores também impacta o preço dos automóveis. A pandemia intensificou o consumo por eletrônicos e implementação de novas tecnologias, tudo que é eletrônico depende dos semicondutores. No setor automotivo, não é diferente, carros cada vez mais tecnológicos, com sistemas eletrônicos complexos demandam muito o uso do componente, o Chevrolet ônix, por exemplo, necessita de mais de mil semicondutores em sua montagem.
No último mês de março, um incêndio consumiu uma fábrica da Renesas Eletronics, localizada no nordeste Japonês e responsável por 30% da demanda global de semicondutores. O impacto na indústria automotiva não foi sentida apenas no Brasil, a produção global de veículos foi afetada, paralizações como as vistas no Brasil também atingiu outros mercados, porém, poucos sentiram tanto a alta nos preços quanto o mercado nacional. Em 16 de junho, Taiwan anunciou uma provável paralização nas fabricas locais devido a um surto de Covid-19, o que deve prolongar ainda mais a crise,
Os velhos vilões e o fim do carro popular
Com a finalidade de impulsionar a indústria automobilística nacional, o então presidente Itamar Franco, criou uma série de incentivos afim de baratear o custo de alguns modelos, reduzindo a alíquota do IPI (imposto sobre produtos industrializados), para o valor simbólico de 0,1%, além de outros incentivos fiscais, o preço máximo era de 7.500 dólares. Eram beneficiados modelos de até 1.000 centímetros cúbicos, nascia assim os famosos 1.0. Uma exceção desse período foi o Fusca que havia deixado de ser produzido em 1986, mesmo equipado com motor 1.600, se enquadrava na lei dos populares, ficou conhecido como Fusca Itamar.
A grande característica do carro popular era ser despojado, nada de vidros e travas elétricas, direção assistida, ar-condicionado? Nem pensar, a maioria dos populares da época não contavam nem mesmo com ventilação forçada, a Chevrolet, por exemplo, reduziu até a espessura dos vidros de seu primeiro popular, o Chevette Junior, mas nem essa medida ajuda no desempenho do sedã de tração traseira e apenas 50cv de potência.
Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso mudou as regras do programa do carro popular. O IPI teve sua taxa elevada para 7%, e o preço máximo de um carro popular podia ser de até 12 mil dólares, isso em épocas em que o câmbio era de um para um. Apesar de valores baixos para os dias atuais, em 1996 o salário mínimo era de 112 reais, porém, o salário médio na indústria na época era de 6,7 salários mínimos, ante pouco mais de 2 mínimos em 2020.
Do início do plano real para cá, não apenas o poder de compra foi dissolvido, a tributação aumentou de forma exponencial. Embora o carro no Brasil nunca tenha sido barato, atualmente só o IPI representa 11% do valor final de um carro com motorização flex, de até 2 litros. No total os tributos diretos representam 52% do valor de um carro 0km. Ainda pior para modelos movidos a diesel, apenas o IPI, neste caso, representa 25% do valor final do veículo, em um total que ultrapassa os 70% do valor pago pelo consumidor final.
No final das contas, o grande vilão é o custo Brasil, nos últimos meses associações e os próprios fabricantes clamam pela redução dos custos de produção no país. Ao contrário do que todos gostaríamos de ver, a tendência é que nos próximos meses os valores aumentem ainda mais, a consequência do momento é a crise hídrica e energética que atingem o país, aumento os custos de produção e montagem.
Outro fator determinante no aumento do preço dos automóveis, está ligada ao mercado consumidor, apesar do motor 1.0 sobreviver, mais tecnológico é claro, o mercado não aceita mais carros despojados. Além dos freios antitravamento e air-bag, obrigatórios desde 2014, itens de tecnologia e conforto são essências nos carros atuais. Um item que também merece destaque é a popularização de transmissões automáticas, sejam tradicionais com conversor de torque, ou as de variação continua, o câmbio CVT.

Comentários
Postar um comentário
Comentários ofensivos ou que não tenham relação com o assunto do blog não serão publicadas.