O fim do Best Cars e os desafios da imprensa especializada em automóveis

O fim do Best Cars evidencia uma crise sem precedentes no jornalismo automobilístico brasileiro, assim como a mídia impressa perdeu espaço para os meios digitais, o jornalismo no geral perde espaço para as redes sociais, local onde as fontes não precisam de nome ou relevância, e que opiniões pessoais valem mais do que fatos.



Sexta-feira, 28 de maio de 2021. Mais uma triste notícia para o jornalismo especializado em automóveis, após 23 anos, chega ao fim o pioneiro do setor no Brasil: o Best Cars, que faz parte do portal UOL. Mais um duro golpe para boa informação automotiva, em tempos nos quais todos são especialistas nas redes sociais, mesmo que nunca tenham dedicado tempo algum em aprender sobre o assunto tão vasto que resumimos muitas vezes à cinco letras: carro.

A crise do jornalismo chegou também aos veículos especializados na internet. O encerramento do Best Cars acende um alerta, não apenas a redução do interesse do público jovem em carros, mas o desafio que enfrentamos frente às redes sociais. Basta adentrar algum grupo sobre carros no Facebook, quase todo integrante desses grupos falam com propriedade de quem têm profundo conhecimento no assunto, inclusive refutando profissionais da imprensa que dedicaram décadas estudando, entrevistando e vivendo as mudanças no setor em geral ou em seus nichos, afinal, como em qualquer outro assunto da vida cotidiana, de amenidades à política, todos são especialistas, todos ouviram dizer, e todos conhecem alguém que conhece uma fonte que não tem nome, muito menos currículo.

O poder dos influenciadores sobre o comportamento do público, é um outro problema enfrentado por quem busca qualidade de informação sobre automóveis, existem boas figuras, mas são exceções à regra. Como nas redes sociais, há o ar de soberba, o desinteresse em estudar sobre o assunto, e não menos importante, a negação do contraditório. O papel de quem comunica é passar o máximo possível de fatos, não se render aos achismos, não mergulhar no mar revolto das fontes sem rosto, nome ou relevância. Mesmo que a intenção seja o entretenimento, o mínimo de pesquisa é bem vindo, afinal, nossa realidade é antagônica: nunca tivemos tanta facilidade de acesso à informação, na proporção inversa, nunca fomos bombardeados com desinformação.

Não podemos deixar de lado as transformações na sociedade, grande parte dos jovens já não nutrem paixão por automóveis. Segundo estudo realizado pelo Instituto Ipsos, entre os anos de 2013 e 2019, houve uma queda de 3% no número de jovens habilitados na faixa etária dos 18 aos 25 anos e, 2,3% entre os jovens de 26 a 30 anos. O surgimento dos aplicativos de transporte, a troca do carro pela bicicleta ou transporte público e mesmo as convicções ambientais, são fatores que levam a esta redução.

Embora o momento para o jornalismo seja nebuloso, ainda mais nas mídias especializadas, alguns títulos tradicionais ainda sobrevivem. Quatro Rodas da Editora Abril e Auto Esporte do Grupo Globo, ainda vivem em versão digital e impressa, entretanto, são publicações que já não focam mais no entusiasta, embora ainda existam matérias sobre carros esportivos. Para sobreviver, as publicações tradicionais focam no mercado, seguro, , mobilidade urbana, novas tecnologias, conectividade, comportamento e curiosidades também fazem parte do desafio de manter uma revista mensal em atividade na era do desinteresse e achismos virtuais.

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