GT 89 Pesados - Volkswagen 22.160: o caminhão de origem alemã e alma de Dodge

Ao contrário do que foi divulgado nos dias anteriores por algumas páginas, não se trata de uma série especial, mas a forma de utilizar motores restantes da Dodge e suprir a demanda do setor sucroalcooleiro.

Volkswagen 22.160 em sua atividade principal, equipado com motor V8 de origem Dodge. imagem: lexicarbrasil.com.br

Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por postagens sobre um exemplar do caminhão Volkswagen 22.160 movido a etanol praticamente sem uso, o hodômetro do veículo marca apenas 135 quilômetros. O caminhão nunca recebeu implemento para trabalho e, ostenta um estado de conservação impecável. Mas o que haveria de errado com esta história? Com o veículo em si nada, mas em todos os relatos há um erro grave.

O anunciante incorre em erro ao afirmar que o modelo é uma série especial e, que a montadora teria criado como uma versão especial do modelo, com o motor V8 318 de origem Chrysler. Propulsor que já era empregado nos caminhões Dodge E-13. Em 1979, a Volkswagen absorveu a Dodge do Brasil, a produção dos produtos de origem americana permaneceu até o ano 1981, quando deu origem a Volkswagen Caminhões, fato que originou o primeiro caminhão da marca no mundo.


Dodge E-13, aplicação diversa.

Com a sobra de motores V8 da Dodge, a montadora alemã aproveitou para suprir a necessidade do setor sucroalcooleiro. Além do pesado 22.160, um caminhão com tração 6x4, que ficou conhecido como VW Canavieiro, eram oferecidas também as versões de ´peso médio 11.130 e 13-130, equipados com motor diesel da MWM (motor à álcool opcional, 11.160 e 13.160). Vale ainda ressaltar o sistema de nomeação dos caminhões Volkswagen, os primeiros dígitos são referentes à capacidade de carga bruta aproximada e, os demais números identificam a potência do motor, portanto, o 22.160 é um caminhão de 22 toneladas bruta (veículo + implemento + carga) e, 160 cv de potência.


11.130 diesel, também disponível na versão a etanol, 11.160. imagem: lexicarbrasil.com.br

Sobre o modelo ser o primeiro caminhão Volkswagen no mundo, seu desenvolvimento ocorreu na Alemanha, mas a fabricação e os testes de validação foram realizados no Brasil, atualmente a linha de caminhões da marca é administrada pela Traton que engloba a Volkswagen ônibus e caminhões, MAN e Scania. Hoje a VW é a pioneira nos testes de caminhões elétricos no Brasil, em conjunto com a AmBev.

Parceria com a AmBev, primeiro caminhão elétrico do Brasil. planetacaminhao.com.br/

Caminhões movidos a álcool de outras marcas

Com a alta dos combustíveis e a crise do petróleo nas décadas de 1970 e 1980, e a criação do programa Proálcool, diversas montadoras adotaram o combustível vegetal como alternativa aos altos preços da gasolina e, do diesel em memor escala, como nos modelos de caminhões relacionados abaixo: 

Chevrolet: com experiência na produção de caminhões como motorização a gasolina, a General Motors do Brasil não teve maiores problemas para se adaptar ao uso do álcool como combustível, bastou adaptar o motor seis cilindros em linha 292. Identificar o modelo era simples através das siglas, C para gasolina, D para diesel e A para álcool, sendo assim oferecido os seguintes modelos: A-40, A-60 e A-22000. Os modelos álcool da montadora foram largamente utilizados por órgãos públicos paulistas, como a Sabesp e Eletropaulo. O motor de 4,8 litros rendia 143 cv de potência a 4 mil rpm, o curioso era a taxa de compressão de apenas 9,5:1, baixa para um motor movido a álcool.

Propaganda de época dos caminhões Chevrolet. Imagem: falando-sobre-carros.blogspot.com/


Ford: também experiente na fabricação de caminhões a gasolina, a Ford ficou conhecida por seus motores V8, porém, nos modelos a álcool, a estratégia adotada era outra, um tanto revolucionária para época. O MWM PID-229, um seis cilindros em linha de 5,9 litros e aspiração natural com versões diesel e álcool, a diferença aqui estava na taxa de compressão, 16,6:1 no diesel e 18:1 nos preparados para receber etanol. Como o motor etanol era basicamente o mesmo diesel, atualmente é difícil encontrar um F-13000 ou F-22000 a álcool que não tenha sido convertido para queimar o combustível fóssil. Com qualquer combustível a potência era de 127 cv a 2800 rpm e torque de 36,8 kgfm 1400 rpm.

F-22000, a versatilidade do motor MWM  PID-229. Imagem:mebuscar.com


Mercedes-Benz: a montadora alemã também se aventurou no mercado de veículos comerciais a álcool, contando com a linha mais variada de aplicações. A primeira foi a adaptação do OM-352, primeiro motor de injeção direta da marca, mantendo  ciclo diesel para a queima de etanol, houveram experimentos também com o OM-355/5, um 5 cilindros de 9,65 litros que equipou protótipos do 2219 traçado.

Mercedes L-2219 equipado com motor OM-355/5 álcool. Imagem: qravolantao.com.br


A aplicação bem sucedida como era de se esperar, estava em um caminhão voltado para o setor sucroalcooleiro, o L-2225 (6x4), equipado com o motor M-352, um OM-352 convertido para o ciclo otto, o qual recebeu velas e distribuidor, além de ter a taxa de compressão reduzida. O resultado era um caminhão mais forte do que a versão diesel, potência de 143 cv a 2.800 rpm de e 43 kgfm de torque ante 126 cv a 2800 rpm e 36 kgfm álcool e diesel respectivamente. Como em mecânica não existe o milagre de ganhar sem perder, mesmo com tanque com capacidade para 300 litros, o L-2225 fazia 800 metros com um litro de etanol.

L-2225: motor convertido para ciclo otto. Imagem: http://merce-denco.blogspot.com/


Imagem: http://merce-denco.blogspot.com/
Outra empreitada da Mercedes, o L-610 era uma variante do 608 a álcool, assim como o OM-352, o OM-314 também foi convertido para o ciclo otto, orginalmente o 4 cilindros de 3,8 litros aspirado rendia 80 cv, contra 92 cv a 2800 rpm do M-314 abastecido com etanol. O caminhão leve acabou obtendo certo sucesso, sendo inclusive parte da frota da empresa de tabaco Souza Cruz.







Scania: ainda hoje a montadora sueca investe em combustíveis alternativos, não apenas em caminhões, mas também em ônibus. o fabricante tem a predileção pelo ciclo diesel em seus motores a álcool, portanto o combustível é aditivado, um detalhe que ajuda a identificar o tipo de motor adotado em caminhões a álcool.

Scania 112 E canavieiro, motor diesel, rodava com etanol aditivado; imagem: lexicarbrasil.com.br


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Willys-Overland Aero Willys 2600

História Ilustrada - Volkswagen Parati Surf

Volkswagen Fusca/Kafër/Carocha/Escarabajo/Beetle/Maggiolino...